sábado, 9 de setembro de 2006

Acidente na Lagoa: e se fosse na avenida Brasil?

O acidente que matou cinco jovens na Lagoa, no último domingo, abalou o Rio. Não se fala de outro assunto. Numa romaria curiosa e macabra, centenas de pessoas de todo o país, enchem de mensagens as páginas do orkut das vítimas, com quem nunca trocaram uma palavra.

Os jornais suitam o caso todos os dias, com direito a uma página inteira do Globo dedicada a carta escrita pelo pai de uma das vítimas. Com tanta repercussão, as autoridades já começaram a anunciar medidas para "evitar novas tragédias". A polícia investiga se o jovem que guiava o carro comprou bebida em frente a boate. A prefeitura já anunciou a instalação de novos pardais eletrônicos para coibir o excesso de velocidade. Uma juíza de menores pediu aos pais vigilância incessante a rotina dos filhos.

Realmente foi uma lástima. Já perdi muitos amigos em acidentes de carro e, como mãe, tento mensurar o que é perder um filho de forma tão abrupta. No entanto, penso que há mais que simples comoção por trás de tanto alarde.

Era um grupo de cinco jovens bonitos, ricos, moradores da Zona Sul, saindo de uma boate na Lagoa num Honda Civic. Assim foi descrita uma das vítimas pelo Globo: "Ivan morava em Ipanema e frequentava a praia do Arpoador. Ex-aluno do Andrews,estudou teatro no tablado(...)".

Minha dúvida é: fossem eles feinhos, com caras de suburbanos, saindo da Via Show num Monza lotado e se espatifassem na Avenida Brasil, teriam sua morte alardeada como a maior tragédia urbana carioca dos últimos tempos?

Desconfio que não...e não pensem que trata-se de preconceito às avessas da minha parte. É um palpite baseado em fatos. Basta lembrar de casos recentes noticiados pela imprensa carioca pra percebermos o quanto ela ainda é elitista.

Em 2003, uma adolescente de classe média morreu durante uma troca de tiros entre policiais e um assaltante no metrô da Tijuca. Como agora, houve cobertura por meses nos jornais, sociólogos e especialistas em segurança pública analisavam o assunto em programas de TV, houve passeata e o escambau. Tudo bem, coitada da menina, a violência deve debatida e analisada, mas peraí! Deixemos a hipocrisia de lado. Outros jovens morrem aos montes, todos os dias, vítimas de balas perdidas, execuções e tiroteios nos morros da cidade e pouco se fala sobre o assunto. Por que será? A verdade é que a vida humana vale menos quando o humano em questão é pobre.

Os pais da Zona Sul sabem que favelados morrem jovens no Rio de Janeiro. Porém, acreditam que seus filhos, no belo cenário em que vivem, aparentemente protegidos do tráfico, dos bondes, da polícia, das guerras entre CV e ADA, não correm tantos riscos. Até que um dia, se deparam com uma cena até então improvável em plena Borges de Medeiros: cinco corpos estirados, cobertos com aquele sinistro plástico preto. A constatação choca: eles também são vulneráveis.

E a imprensa, feita pro seu "público alvo"- outros pais de classe média, em sua maioria- mostra-se também estupefata. Basta observar o título usado pela revista Época na matéria sobre a menina morta no Metrô: "Poderia ser sua filha"

3 comentários:

Juliana disse...

Tati, Concordo com vc. Mas ao mesmo tempo, somos sim uma sociedade hipócrita. Mas não dá pra desmerecer esses casos e as massificações na mídia. Vivemos de exemplos, não tem jeito. Mais do que exemplos: temos a péssima mania desde os primórdios de criarmos mártis, heróis e vilões. Infelizmente, quando estes são criados, parecem que são casos isolados. Hipocrisia ou não, no caso do acidente da Lagoa, acho extremamente válida tamanha cobertura pois é um absurdo o que acontece dentro de qualquer boate (com a entrada e venda indiscriminada de bebida alcóolica pra menor) e na saída delas, seja no Sky Louge, seja na Via Show. O irmão de um amigo está tetraplégico por conta de um acidente exatamente na mesma árvore, ocorrido há 6 meses sem sequer ter tido uma notinha no jornal. Hipocrisia maior ainda nesse caso, seria que a árvore fosse dali retirada como se ela sim, fosse a grande vilã nessa estória toda. Bjss procê!

Ostiano disse...

Tati, a sua constatação é a mais pura realidade do que acontece neste país. Aqui em Pavuna-Beach, tem tiroteio quase todo dia. Já conheço todos os calibres e já vi ação até com granada. No dia seguinte, não há uma mísera linha nos jornais da cidade... Quando acontece na zona Sul é um Deus-nos-acuda. Aliás, no dia em que alguns policiais chacinaram 30 pessoas nas ruas da Baixada, nenhum site deu destaque à notícia. A maioria nem falou a respeito. No dia seguinte, o Globo deu uma notinha pequena em página par e só na terça, o maior jornal do país se tocou que tinha que transformar aquela barbárie em manchete. Um absurdo...

Anônimo disse...

é muito fácil julgar...

mas fazer oq? algumas coisas realmente chamam mais atenção que outras, todo dia morre gente no Rio vítima de violência, dos 8 ao 80...pq por exemplo aquela garota Gabriela teve e tem destaque até hoje?
pq a inglesinha Madeleine, ou sejá lá como escreve, chamou atenção do mundo todo, inclusive do Beckham, famoso, e, consequentemente influente?

não tem pq criticar....esse caso da Lagoa..
todos e ninguém é culpado..
Ivan por ter dirigido bebado e ainda abusar da velocidade..
os outros...beberam...sim...mas como disse o parente de um deles, foram vítimas de uma carona infeliz...

sou da seguite opinião...quer beber? beba até cair..até entrar em coma alcoolico, mas PQP não dirija....isso é suicidio..

como diz no livro do pai da Ana Clara, as meninas iam voltar de taxi, mas infelizmente cancelaram...

e vale dizer que Ana Clara, foi a única q não tinha bebido e que estava usando o cinto..
não estou dizendo que era santa, vi em mtas fotos do fotolog de amigas, ela com copo de cerveja na mão e etc, mas naquele fds ela estava tomando antibióticos e não bebeu.

outra coisa ainda que Padilla diz no livro....e que foi publicado no jornal, o texto chamado "Estado Negligente"...
eles eram todos mto bem de vida, os meninos faziam facul cursos etc, as meninas estudavam em um bom colégio e tbm faziam seus cursos, ou seja, quem perdeu não foi apenas os pais, irmãos, familiares e amigos.....foi o país também...afinal eram pessoas com condições de estudar...que mais cedo ou mais tarde iriam contribuir com o país...
todo investimento que os pais fizeram..morreu ali no chão com eles...
não digo que pobres podem morrer que não vão fazer falta....
mas, esse foi um desses casos que se destacou entre dezenas de outros casos parecidos...

repito....é fácil julgar...e falar "filinho de papai, q sai bebe e dirige dá nisso, bem feito"

mas algum de vocês os conhecia? sabe se isso era comum?
as vezes um único erro é fatal..
e cito mais uma vez Gabriel Padilla em seu livro...
"Se o destino tinha contas a acertar, se mostrou duro e inclemente, Não foi capaz sequer de dar uma única chance à inconsequencia da juventude. Foi cruel ao extremo ao levar cinco jovens amigos. Todos de uma vez só"