domingo, 3 de setembro de 2006

Léo Loirinho


-Alô. Oi, Douglas, tudo bem? Fiquei sabendo que o Léo tá aí no morro, fala com ele que eu vou aí fazer uma visita
-Não vai dar Tati...você não sabe o que aconteceu?
-Não...o quê foi?
-O Léo morreu. Foi assassinado, mais de 10 tiros. Acho que foi a polícia, não tenho certeza. Até agora não entendi direito...


Léo Loirinho. Era chamado assim pela molecada da favela, a maioria negra, da qual ele destoava com sua pela branca e seu cabelo russinho. O conheci nas festas e eventos do projeto social em que trabalho lá no morro, quando ele tinha uns 15, 16 anos. Diferentemente dos outros garotos, quase não falava e sempre me encarava com um olhar meio desconfiado, "boladão", como eles dizem, o que me fez acreditar, durante um bom tempo, que não ia com a minha cara.

Me enganei. Em pouco tempo, ganhei um parceirinho. Quando ia a festas no morro, ele sempre bancava o garçom-guarda-costas. Enchia meu copo, arranjava coisas pra eu comer, pegava carro emprestado pra me levar em casa...e ainda me protegia de eventuais cantadas inconvenientes. "Respeita ela, que é a professora!"

A casa do Léo é uma das mais bonitas da comunidade. Embora humilde, como todas por lá, tem uma área espaçosa de onde se tem uma vista pra deixar donos de cobertura com inveja: a baía de Guanabara, o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor...volta e meia íamos todos pra lá comer peixe na brasa, feito na folha da bananeira. Quando fiz 28 anos, decidi comemorar meu aniversário no morro e ele me ofereceu a casa dele. Acho que foi o melhor aniversário que tive. Até os meus amigos, que ficaram meio ressabiados de subir a favela, se acabaram.

No fim da festa, ele me aparece com um bolinho pequeno, todo rosa, com meu nome escrito. Ele havia encomendado e guardado na geladeira da vizinha até o fim da noite, pra me fazer uma supresa. "Comprei pra você, pra nunca mais esquecer de mim".

Vi o Léo pela última vez num forró lá na favela. Faz uns cinco meses. Ele tava meio estranho...como sempre, veio perguntar se eu queria alguma coisa e eu, brincando, respondi: "Um Whisky, Leozinho". Dez minutos depois, pro meu total espanto, ele volta com uma garrafa de Black Label.

Não entendi nada! Como aquele moleque havia sacado um Black Label na favela? Aliás, como ele havia arranjado grana prum Black Label? "Tô com dinheiro, Tati. Virei patrão agora".

A resposta me deixou com medo. E uma tremenda angústia. Quem trabalha com jovens de favela sabe que a fronteira entre o bem e o mal é mais tênue pros moleques. Por isso, sempre estamos preparados para perder alguns deles. Como aconteceu com o Luizinho, logo que comecei a participar do projeto...

Mas o Léo também? Não, não podia ser. Sabia que já tivera um envolvimento com o tráfico, mas havia se regenerado. Consegui uma bolsa pra que ele e mais dois meninos fizessem um curso no Senai e, depois de formado, ele conseguiu um bom emprego num estaleiro. E tinha acabado de ser pai. Parecia feliz. Parecia...

Logo depois do episódio do Black Label, soube que ele teve um problema sério com a polícia. Antes de fazer julgamentos, liguei pra saber o que havia acontecido. "Melhor você não saber. Vou ter que ir embora pra São Paulo. Acho que não vai me ver nunca mais".

Infelizmente, aquela despedida foi mesmo profética. Três meses se passaram. Ontem a noite, soube que ele estava de volta ao morro, viera visitar a mãe e os amigos. Falei pra um dos meus alunos: "avisa ao Léo que amanhã vou lá ver como ele está".

Não deu tempo. Uns policiais o encontraram antes. Um amigo dele, que viu tudo, disse que foram mais de 10 tiros, a queima-roupa. Ninguém sabe ao certo porque, talvez nunca saberá. Gostaria apenas que a notícia que o Douglas me deu ao telefone fosse a última desse tipo. Mas, infelizmente, tenho a impressão de que não foi...

5 comentários:

Letícia disse...

Triste...adolescentes vem e se vão na mesma velocidade com que os anos parecem passar para os que permanecem aqui...É triste demais ver que a adolescência voa mesmo, seja da forma boa ou ruim... ;(

Comunale disse...

É, Thati. Acho que eu sinto um pouco como vc sendo prof. da rede pública. Dia desses, percebi o sumiço de um aluno da sexta série. Resolvi perguntar aos colegas dele o que tinha acontecido. Daí a dura realidade: depois de ter feito um assalto e ainda sair baleado, foi preso. Por mais que convivamos com isso, pra mim, é sempre um choque.

Moscow disse...

Quebra barraco, Vez ou outra me passa pela cabeça aquelas semanas em que ficamos juntos, na pauta especial... foram dias de aulas de vida. Lhe agradeço por me "arrastar" por tantas histórias de gente comum, esquecida por aí. Seu blog é um achado dos bons. Saúde e paz! beijo grande, Moskow!

Helder Júnior disse...

Parabéns pelo blog, muito bom msm...

Marcel disse...

Poxa Panela... fiquei ate bolado depois de ler, mas ao menos sei que, tem alguém como você que realmente se importa e quer lutar, pra ajudar quem precisa... Fica aqui os meus pêsames...