Inferno astral? Pagamento de pecados pregressos com juros de cheque especial? Encosto? O fato é que por razões místicas ou por pura e simples coincidência infeliz, estou numa fase em que tudo dá errado. Problemas no trabalho, problemas com a família fantástica, fracassos impublicáveis na vida sentimental... Enfim, o período atual da minha existência é a síntese perfeita da máxima popular "quando a maré tá ruim, o urubu de cima caga na cabeça do de baixo".
Para espantar o mau agouro, decidi aceitar um convite do meu amigo Caio para um sambinha em Botafogo, estilo "gente bonita e clima de azaração". Achei bacaninha o lugar e até me diverti, sobretudo depois de encontrar-me entorpecida por uma quantidade significativa de Antarctica Original. Saí de lá mais leve, sorridente e até acreditando que, se Deus existe, ele deve estar penalizado com a minha situação.
E a minha euforia otimista chegou ao ápice quando, depois de pegar um ônibus errado (olha o encosto aí!) fui socorrida por um rapaz muito bem apessoado, que se dispôs a me acompanhar até o ponto do coletivo que me traria de volta para a Província de Araribóia. Gentil, o garboso moçoilo ainda me levou para degustar um autêntico podrão em Copacabana, daqueles que salvam qualquer larica de fim de noite. Ainda fez questão de pagar a conta, o fofo!
Tudo muito lindo e colorido, até que algo fez acender o meu alerta vermelho! Numa tentativa de levantar meu combalido astral, o rapaz citou uma frase de Paulo Coelho. E ainda revelou a fonte!! Por que não sugou a famigerada frase e soltou no ar, como se fosse dele? Eu acharia apenas brega, mas ignoraria o fato de que ele lê (e cita) Paulo Coelho. E continuaria acreditando que encontrara uma espécie de príncipe encantado de fim de noite.
No entanto, relevei e continuei minha caminhada pela Atlântica com o mocinho. Afinal, não tinha lá muita coisa a perder àquela altura do campeonato. E depois daquela, ele não teria repertório para fazer com que eu perdesse ainda mais a fé na humanidade e na minha euforia otimista. Ledo engano...
Estávamos nós num clima semi-romântico num ponto de ônibus da Prado Júnior (pra quem não é do Rio, é uma rua de moças de vida fácil, onde mora o travesti do Ronaldinho), quando o bonitinho me dirige a seguinte pergunta:
- Você não me falou do seu pai. Ele é mecânico?
Eu, muito intrigada:
- Não, meu pai morreu há alguns anos, mas não era mecânico, não. Por quê?
Esperava um esboço de constrangimento do rapaz ou um gesto de solidariedade à minha condição de moça orfã, mas... acreditem! Ouvi a seguinte resposta:
- Porque você é uma "graxinha"
Esse superou com ampla vantagem o protagonista do episódio "chaves do coração".
